Polo Cultural Gaivotas - Boavista
Polo Cultural Gaivotas - Boavista
Uma década a impulsionar a criação artística em Lisboa
Num edifício que já foi uma escola, no coração da Boavista, constrói-se há dez anos uma forma diferente de fazer cultura em Lisboa. Longe dos palcos iluminados e da azáfama das plateias, o Polo Cultural Gaivotas-Boavista afirma-se como um lugar de bastidores, onde as ideias ganham corpo e a criação acontece.
“O Polo é um equipamento de acolhimento. Acolhimento artístico, acolhimento humano”, diz Mafalda Sebastião, coordenadora do Polo.
Integrado na Direção Municipal de Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, o Polo das Gaivotas foi criado com o objetivo de apoiar a criação artística e fortalecer o ecossistema cultural da cidade, numa fase do processo criativo que raramente é visível, mas é essencial.
Equipamento municipal para criadores
Num tempo em que o acesso a espaços é um dos maiores desafios do setor, ao contrário de muitos equipamentos culturais orientados para a programação pública, o Polo das Gaivotas dedica-se, antes de tudo, a dar estabilidade aos profissionais. O edifício conta com cinco salas de trabalho artístico e de formação: quatro Salas de Ensaio – uma de Teatro, outra de Dança, uma de Música e outra Polivalente – estão totalmente equipadas para responder às exigências técnicas da criação artística; já a Sala de Formação é utilizada para workshops, castings, ateliers e outras atividades de desenvolvimento de competências.
No segundo piso, cinco salas de escritório funcionam como sede administrativa de associações culturais emergentes, oferecendo estabilidade a projetos que, durante anos, viveram em esplanadas de cafés, casas emprestadas e espaços improvisados.
“Procurávamos realmente um sítio que não tínhamos. Fazíamos as nossas reuniões em esplanadas e foi para nós uma oportunidade esplêndida podermos passar a trabalhar aqui neste espaço magnífico das Gaivotas.” – Nuno Reis, Intersonic Arts Association.
A este núcleo junta-se um conjunto de residências artísticas, na Boavista, junto ao Rio Tejo e em Monsanto, destinadas a artistas portugueses e estrangeiros que não residam em Lisboa, mas que estejam a desenvolver trabalho artístico na cidade. Uma resposta concreta a uma realidade muitas vezes ignorada: a precariedade logística da criação artística.
Da criação à produção
Um percurso completo
Uma das singularidades do Polo Cultural Gaivotas é a forma como articula as diferentes etapas do processo cultural. A criação artística acontece nas salas de ensaio; a produção e a estruturação administrativa ganham forma nos escritórios; e o apoio técnico, burocrático e legal encontra resposta na Loja Lisboa Cultura.
Localizada a cerca de 100 metros do Polo, a Loja Lisboa Cultura é um serviço municipal gratuito de atendimento, informação e formação especializado para o setor cultural. Ao longo dos últimos anos tornou-se uma referência para artistas e produtores, com milhares de atendimentos e ações de formação em áreas como financiamento, fiscalidade, segurança social, direitos de autor, estatutos profissionais, mobilidade, apoios e financiamentos
“Eu acho [sobre a Loja Lisboa Cultura] que é uma das coisas mais importantes que existem em Lisboa a nível cultural. São um grande, grande apoio. Principalmente para jovens artistas independentes, que estão a começar. Eu dou aulas de produção e estou sempre a dizer aos meus alunos: “Vocês têm que aprender o que é a Loja Lisboa Cultura, têm de conhecer o Polo”, porque é o início de muita coisa.” – Leonardo Garibaldi, Os Possessos.
Mafalda Sebastião, a coordenadora do espaço, afirma que o apoio prestado pela Loja ao longo dos processos de candidatura, bem como na resposta aos desafios associados à produção e ao financiamento nestas áreas, é decisivo para a viabilidade e continuidade de muitos projetos.
Mas nenhum projeto artístico se concretiza plenamente sem a sua apresentação. Ainda que esta fase seja assumidamente contida (uma vez que o Polo não é, na sua essência, um espaço de exibição) durante o verão o programa Gaivotas no Pátio, uma rubrica anual de programação, abre as portas do Polo e oferece aos artistas a oportunidade de partilharem os seus projetos com a cidade. É neste momento que o trabalho desenvolvido nos bastidores encontra, finalmente, o seu público.
Uma casa de artistas
Segurança e estabilidade. Estas são as palavras que se repetem nos testemunhos das companhias e associações que aqui trabalham.
A companhia SillySeason, presença assídua no Polo desde 2016, e que atualmente ocupa um dos escritórios, recorda um tempo em que os ensaios aconteciam em espaços públicos: "Reuníamos em cafés, construíamos espetáculos em sítios improvisados”, recordam Cátia Tomé e Ivo Silva, diretores artísticos da companhia.
É também a partir desta relação de longa data com o Polo que surge Smoke and Mirrors, um espetáculo encomendado para as celebrações do 10.º aniversário. A performance propõe um percurso performativo pelos diferentes espaços do edifício e, através de uma abordagem contemporânea e pouco convencional, convida o público a descobrir o Polo a partir de uma nova perspetiva.
Para ambos, o papel do Polo Cultural das Gaivotas é fundamental. Quer pela forma calorosa com que são sempre recebidos, quer pela liberdade total para habitar e explorar o espaço. Cátia diz mesmo que essa disponibilidade cria um ambiente de confiança e conforto, onde se torna possível desenvolver objetos artísticos que, muitas vezes, partem de ‘lugares de intimidade’. "[O Polo] funciona quase como uma casa, uma família que nos acolhe.”
Essa ideia de casa atravessa muitos discursos. Para o coletivo residente Teatro meia volta e depois à esquerda quando eu disser, o Polo trouxe estabilidade e criou condições para o seu desenvolvimento numa cidade que carece de espaços de ensaio. Essa importância reflete-se também no trabalho mais recente do grupo: “Neste momento estamos em digressão do último espetáculo que fizemos que se chama Os Empregos Modernos, cuja maior parte do processo de criação e de ensaios foi feita aqui”, explicam Sara Duarte e Alfredo Martins, membros da direção artística do Teatro.
Além disso, o espaço assume-se como um local de encontro e de potencial cruzamento artístico. Aqui, artistas das mais diversas áreas convivem no dia a dia, entre salas de ensaio, balneários e espaços de refeição, partilhando experiências e ideias, num quotidiano feito de proximidade, unidos por uma única paixão: as artes.
Também a companhia Os Possessos, que acompanha o percurso do Polo desde o seu início, reconhece neste espaço um verdadeiro ponto de viragem no seu trajeto artístico. “Há dez anos, lembro-me de vir para cá ensaiar projetos independentes no início da minha carreira”, conta Leonardo Garibaldi, produtor artístico da companhia de teatro. "Aqui ganhámos um poiso. Um lugar para pensar, criar, organizar. Deu-nos essa estabilidade que nos faltava.”
Mais do que um espaço físico, o Polo afirma-se, para esta companhia, como um lugar onde as ideias ganham corpo, onde os projetos encontram tempo e condições para crescer. Laissez-faire, uma criação de Leonardo, com texto escrito em coautoria com Leonor Buescu, com data de estreia prevista para outubro, iniciará o processo de ensaios nas salas do Polo.
“É uma âncora cultural fundamental para quem começa e para quem continua a trabalhar nesta área.” - Leonor Buescu, Os Possessos.
Mas para além das condições de trabalho, Leonardo sublinha aquilo que considera ser verdadeiramente extraordinário no Polo: as pessoas. Na verdade, a equipa que aqui trabalha, sempre próxima e disponível, faz parte do quotidiano criativo da espaço. Esta proximidade torna-se fundamental, sobretudo para jovens artistas independentes, tornando-se um verdadeiro apoio na resolução de questões práticas, no início de carreira.
Apoio às artes, sem filtros
No Polo não há curadoria artística, apenas critérios de acesso ligados ao propósito do espaço: projetos ligados à cidade de Lisboa e às artes performativas: “Nós recebemos todos os artistas que estão relacionados com a cidade, sem qualquer tipo de filtro, a não ser o verdadeiro propósito de criação ou de trabalho artístico aqui no Polo”, explica Mafalda Sebastião.
Esta democraticidade e liberdade reflete-se também na diversidade de perfis artísticos que ali coexistem. A Intersonic Arts Association, associação cultural dedicada à interseção entre música, artes, ciência e tecnologia, encontrou no Polo um lugar ideal para a experimentação interdisciplinar que caracteriza o seu trabalho. Nuno Reis, membro da direção da associação, destaca a importância de ter um lugar para o desenvolvimento de projetos ligados à música improvisada e à música eletrónica, que têm vindo a desenvolver.
“Eu já tinha estado aqui a fazer ensaios para uma peça de teatro para a qual fiz música. Então já conhecia o espaço e a dinâmica. É realmente algo absolutamente fantástico, o ambiente que se vive aqui nas Gaivotas.” - Nuno Reis, Intersonic Arts Association
Paralelamente, a Intersonic, aposta também na intervenção através das artes, com uma forte dimensão comunitária e educativa, promovendo projetos, nomeadamente no âmbito da linha BIP/ZIP, integrada na Câmara Municipal de Lisboa. Sem um espaço concebido com estas características, muitos destes projetos enfrentariam obstáculos significativos na sua fase de criação.
Dez anos depois, pensar o futuro
Em 2026, o Polo Cultural Gaivotas - Boavista assinala uma década de atividade.
Ao longo dos últimos dez anos foram mais de 4400 projetos desenvolvidos nas salas de trabalho e cerca de 900 projetos com profissionais acolhidos nas suas residências artísticas. Já a Loja Lisboa Cultura consolidou-se como um eixo fundamental de apoio, formação e proximidade ao setor cultural em Lisboa. Ali promoveram-se 160 ações de formação, envolvendo 6100 formandos, num total de 24 mil atendimentos.
As celebrações do 10.º aniversário do Polo estendem-se ao longo de todo o ano de 2026. Entre os gestos simbólicos que marcam esta celebração está a atribuição de nomes às salas de trabalho artístico, que vão passar a homenagear figuras incontornáveis das artes performativas (como Adelaide João, Filipe Duarte, Michel, Mónica Lapa e Teresa Roby), num tributo ao legado artístico que continua a inspirar novas gerações.
Programa Comemorativo
Celebrações do 10.º aniversário do Polo
A programação comemorativa inclui, espetáculos, performances, um ciclo de cinema anual e um programa de formação da Loja Lisboa Cultura, concebido especialmente para o ano de aniversário. Este curso intensivo dirige-se a produtores culturais em início de carreira na área das artes performativas e decorrerá ao longo de três dias no Polo, reunindo ferramentas práticas essenciais para a vida profissional e culminando com a ida a um espetáculo e uma conversa com uma equipa de produção.
O ano de 2026 vai marcar, ainda, o primeiro ano de programação do Gaivotas no Pátio, através de uma chamada aberta de propostas, uma novidade que trouxe maior diversidade e frescura à programação do Polo, reforçando a sua identidade enquanto espaço aberto à pluralidade de práticas artísticas.
A celebração é também um momento de projeção
Olhando para o futuro, o pensamento estratégico delineado para o período 2026–2030 aponta para novos caminhos.
Entre eles destaca-se o reforço da ligação às escolas artísticas, para encurtar a distância entre a formação académica e a entrada na vida profissional. Outro objetivo passa pela criação e consolidação de uma rede alargada de espaços de ensaio, trabalhando em conjunto com juntas de freguesia e coletividades, como forma de reforçar a ligação entre artistas e comunidades.
Por fim, o projeto Ensaio Geral- que promove o acesso à cultura por parte de públicos em risco de exclusão social, facilitando a participação em espetáculos e experiências culturais – é uma das prioridades que o Polo pretende fortalecer, reafirmando a cultura como um direito e uma ferramenta de inclusão social.
Um lugar especial
Ao longo destes dez anos de atividade, o Polo Cultural Gaivotas - Boavista construiu algo raro: um equipamento municipal que se tornou, para muitos, uma segunda casa.
Um lugar onde a cultura é pensada desde o primeiro momento. Onde o tempo de criação é respeitado. E onde o trabalho artístico encontra as condições necessárias para acontecer. “Toda a gente do setor cultural, profissionais da área da cultura, todos são bem-vindos aqui. Porque nós, todos os dias, trabalhamos para receber", sublinha Mafalda Sebastião.
Mais do que um edifício, o Polo é uma estrutura de acolhimento e de possibilidade. É nas suas salas de ensaio que nascem espetáculos, que se afinam instrumentos, que se aperfeiçoam movimentos, que se escrevem textos, que se experimentam novas formas de criar. É aqui que muitas ideias prematuras se transformam em aplausos.
Mas essa dimensão de casa não é apenas física. Traduz-se também na proximidade com os artistas, na abertura às propostas, na ausência de barreiras à criação. Traduz-se na construção de confiança. E na ideia de que a criação artística precisa de estabilidade e reconhecimento para florescer.




