Bordalo Pinheiro como nunca foi visto
Bordalo Pinheiro como nunca foi visto
O Zé Povinho e a sátira que atravessa gerações em Lisboa
Rafael Bordalo Pinheiro foi caricaturista, ilustrador, autor de trabalhos gráficos, figurinista, ceramista, decorador, empresário. Um artista total. O seu grande amigo César Machado definiu-o de forma certeira: “Artista. Em tudo e de tudo artista.”
Lisboeta de origem e de vivência, Bordalo Pinheiro cruzou-se com escritores, jornalistas, atores, dramaturgos e encenadores. Viajou por cidades europeias, viveu quatro anos no Rio de Janeiro e dirigiu três dos oito jornais humorísticos que fundou ao longo da vida. Liberal, socialmente comprometido e interventivo, fez do humor uma ferramenta de leitura crítica do país e, ainda hoje, continua a provocar riso e reflexão.
Um museu com história e com humor no ADN
A reportagem ganha outra dimensão quando o próprio edifício entra na narrativa. O diretor do Museu Bordalo Pinheiro, João Alpuim Botelho, lembra que o museu tem várias singularidades: “Foi construído de raiz para ser museu”, com soluções arquitetónicas pensadas para a experiência do visitante.
E conta a origem inusitada da instituição, que o museu recorda com o humor que sempre o acompanha:
“Nós dizemos, um bocadinho a brincar, que o museu nasceu como antidepressivo.”
A história passa por Artur Ernesto de Santa Cruz Magalhães, admirador de Bordalo Pinheiro, que iniciou a coleção num período de luto e acabou por dedicar o primeiro andar da casa ao museu, constituindo um espólio que integra objetos pessoais, cadernos, originais e materiais de trabalho do artista.
Incentivado por amigos, começou por reunir sobretudo desenhos de Bordalo Pinheiro num gesto que era também político e ideológico. Republicano convicto, próximo de figuras como Magalhães Lima e António José de Almeida, Cruz Magalhães reconhecia na obra de Bordalo Pinheiro um pensamento crítico e interventivo com o qual se identificava. A coleção cresceu de tal forma que decidiu mandar construir uma casa, entre 1914 e 1916: o edifício onde hoje funciona o museu, distinguido com menção honrosa do Prémio Valmor. O rés do chão ficou para habitação e o primeiro andar foi dedicado inteiramente ao museu.
Outra particularidade reforça o caráter pioneiro da instituição: foi o primeiro museu da cidade a ter uma mulher como diretora. Julieta Ferrão, sobrinha de Cruz Magalhães, assumiu a direção numa época em que tal era excecional. Longe de um cargo simbólico, foi uma figura determinante no desenvolvimento dos museus municipais de Lisboa, chegando mais tarde à direção desse conjunto. Com sentido de humor, traço que parece atravessar toda a história do museu, dizia de si própria:
“Sou a última caricatura do Bordalo”.
Hoje, essa herança traduz-se também na forma como o museu se pensa e se posiciona. “Gostamos de chamar-lhe um museu de charme, porque tem uma dimensão muito humana”, afirma João Alpuim Botelho. Um refúgio no Campo Grande, com a memória de uma Lisboa que, no século XIX, era “Zona das hortas”, e com a ambição clara de voltar a colocar o Museu Bordalo Pinheiro no centro da vida cultural da cidade.
O Zé Povinho
A sátira que atravessa gerações
Poucas figuras criadas na cultura portuguesa alcançaram a força simbólica, a longevidade e a atualidade do Zé Povinho. Criado por Rafael Bordalo Pinheiro, em 1875, o Zé Povinho nasce como personagem gráfica, mas rapidamente se transforma numa representação coletiva: o povo anónimo, observador, muitas vezes resignado, mas também capaz de ironia, crítica e reação.
Na nova Exposição de Longa Duração do Museu Bordalo Pinheiro, o Zé Povinho assume um lugar central. Não surge isolado, mas integrado num núcleo dedicado às figuras e personagens da comédia Bordaliana, em diálogo com outras criações do artista e com as personalidades políticas, culturais e sociais do seu tempo. A exposição permite acompanhar a construção progressiva da personagem, desde os primeiros registos inspirados nos costumes rurais dos arredores de Lisboa até à consolidação do Zé Povinho como símbolo político.
Como explica Mariana Roquette Teixeira, a curadora da exposição, Bordalo Pinheiro cria o Zé Povinho a partir da observação direta do quotidiano popular. Um homem simples, de expressão corporal forte, reconhecível, que incorpora gestos, atitudes e silêncios. Ao seu lado surge Maria da Paciência, figura feminina igualmente construída a partir dos costumes populares, mas dotada de uma personalidade ativa, interventiva e crítica, frequentemente em contraste com a passividade do Zé Povinho.
Ao longo do percurso expositivo, o Zé Povinho apresenta-se em múltiplos contextos: como observador da cena política, como vítima das manobras do poder, como metáfora da apatia coletiva, mas também como agente de reação. Um dos momentos mais emblemáticos é a representação do famoso “manguito”, gesto popular que Bordalo transforma num símbolo gráfico de contestação, associado ao contexto político do final do século XIX. A exposição mostra como este gesto não foi uma invenção do artista, mas uma apropriação consciente de um código popular, amplificado pela linguagem da caricatura.
A força do Zé Povinho reside precisamente nessa ambiguidade. É simultaneamente resignado e crítico, passivo e consciente, cómico e trágico. Um espelho desconfortável da sociedade. Como sublinha João Alpuim Botelho:
“Este museu conta não só quem era Rafael Bordalo Pinheiro, mas também a história do povo português. E o Zé Povinho, o resignado, mas também a luta e também aquilo que era o acreditar que podemos fazer diferente e que as pessoas são o mais importante.”
Na exposição, o Zé Povinho não é tratado como peça do passado, mas como figura viva, em diálogo com o presente. O visitante é confrontado com a atualidade das questões que Bordalo colocava: a relação entre governantes e governados, a indiferença perante a injustiça, a necessidade de reação cívica. A sátira, longe de ser mero entretenimento, afirma-se como linguagem política.
Este capítulo dedicado ao Zé Povinho revela, assim, uma das dimensões mais profundas da obra de Bordalo Pinheiro: a capacidade de criar uma figura que ultrapassa o seu tempo, atravessa regimes políticos e continua a interpelar gerações. Mais do que uma personagem, o Zé Povinho é uma pergunta aberta — sobre o poder, sobre a cidadania e sobre o lugar de cada um na história coletiva.
Bordalo Pinheiro em seis núcleos
Uma leitura contemporânea da obra e do seu tempo
A nova Exposição de Longa Duração procura mostrar Bordalo Pinheiro em toda a sua complexidade, nas várias áreas em que trabalhou e atuou. A curadora Mariana Roquette Teixeira organizou o percurso em seis núcleos temáticos, que permitem ao visitante aprofundar a obra através de diferentes perspetivas.
“A exposição organiza-se em seis núcleos temáticos, que analisam a obra a partir de diferentes perspetivas e permitem ao visitante uma leitura aprofundada e diversificada.”
O primeiro momento do percurso assume-se como ponto de partida indispensável: o tempo de Bordalo. “Para o visitante compreender a caricatura e o cartoon de Bordalo Pinheiro tem que conhecer o seu tempo e a mentalidade do seu tempo”, sublinha a curadora. É aqui que o olhar do artista se cruza com a política nacional e internacional, com os conflitos europeus, com os imperialismos e com a relação entre Portugal e o Brasil, num arco temporal que a própria curadoria delimita: “Esta seleção começa em 1870 e termina em 1900. Começa com o primeiro jornal, a Berlinda, e termina com o último jornal, a Paródia.”
Os “jogos” do humor e a inteligência do desenho
Da contextualização passa-se para o laboratório da criação. No núcleo dedicado aos “Jogos de Humor”, a exposição apresenta recursos gráficos e retóricos que Bordalo domina e transforma: metáforas visuais, deformações, metamorfoses, a cor como símbolo, experiências narrativas próximas da banda desenhada. Mariana Roquette Teixeira aponta esse objetivo de forma direta: “Procurámos dar a conhecer ao visitante os recursos humorísticos e gráficos do desenho, mas também retóricos, através das metáforas que Bordalo Pinheiro usava no seu trabalho.”
O percurso mostra ainda a evolução técnica e editorial do artista: do álbum gravado sobre cobre ao desenvolvimento da litografia, à cor e às soluções formais que quebram a própria página, desenhos que atravessam margens, que puxam o leitor para o jogo, que pedem participação.
Personagens, teatro e Lisboa como palco
A exposição avança para o universo das figuras e personagens. Entram em cena atores, atrizes, personalidades políticas e culturais, colecionáveis como o Álbum das Glórias, e a galeria de personagens simbólicas. É também aqui que se consolidam duas figuras essenciais: Zé Povinho e Maria da Paciência, trabalhados a partir de referências aos costumes populares.
O núcleo seguinte abre as portas aos palcos de Lisboa, os teatros e a cidade como cenário vivo. Bordalo surge como cronista atento, crítico teatral, observador mordaz do quotidiano urbano. A exposição evidencia a sua relação com o teatro, o desenho de figurinos, a publicidade e a crítica social, em temas que, no diálogo com a cidade, mantêm uma inquietante atualidade: rendas, despejos, desigualdades, moralidade pública.
A comédia política e o lápis como arma
Atravessando a comédia política, a exposição não afasta o visitante dos dilemas do presente. Há um núcleo que coloca em cima da mesa as tensões da própria obra: o humor que expõe vícios do sistema, que usa metáforas teatrais para falar de eleições e bastidores, mas que também convoca perguntas sobre limites, preconceitos e leituras contemporâneas.
No final, a exposição sublinha o papel interventivo do artista. O núcleo “Lápis como arma” centra-se na liberdade de expressão e de imprensa, na censura e na necessidade de reação cívica. A curadoria recupera uma frase que resume esse princípio: “o jornal é como a rua, pertence a todos.” A imagem torna-se literal e política: a rua como lugar de liberdade e conflito; o desenho como gesto de resistência.










