Rui Pereira, artista plástico e lisboeta

Rui Pereira, artista plástico e lisboeta

A arte só faz sentido quando sai de nós para chegar aos outros

Rui Pereira é lisboeta e artista plástico. A sua relação com a cidade começou há muitos anos, e ao longo do tempo foi construindo um percurso onde o design, a escultura, a pintura e a intervenção cívica se foram cruzando de forma natural, sempre com a mesma convicção: “a arte é a comunicação” e o espaço público pode ser “um lugar onde a cidade se reconhece a si própria”.

Formado em Belas-Artes, encontrou na criação uma linguagem que o acompanha desde cedo. O desenho surgiu ainda na infância e foi crescendo com a consciência de que a arte podia ser mais do que expressão individual. Podia ser encontro. Podia ser presença. Podia ser uma forma de dar sentido ao que nos rodeia. “Se a arte não acrescentar alguma coisa à vida das pessoas, perde o seu sentido”, diz, resumindo uma ideia que atravessa todo o seu trabalho.

Na Câmara Municipal de Lisboa, onde trabalha há mais de 30 anos, começou por desenvolver projetos ligados ao design gráfico, à criação de peças institucionais, troféus, objetos de representação e suportes para iniciativas culturais e protocolares do município. Com o tempo, esse trabalho foi ganhando outra dimensão. As peças deixaram de viver apenas em espaços interiores e começaram a ocupar a própria cidade, transformando Lisboa numa “galeria aberta onde a arte se cruza com o quotidiano”.

“Não basta fazer coisas bonitas sem significado.” 

Essa ideia acompanha cada intervenção. Em diferentes bairros da cidade, Rui Pereira foi deixando obras que procuram dialogar com quem passa. Algumas são discretas, outras impõem-se pela escala, mas todas partem da mesma intenção: criar uma relação entre memória, identidade e cidadania. Para o artista, a obra pública deve ter a “capacidade de interromper a rotina e criar um instante de reflexão”.

Entre as peças que mais marcam o seu percurso está o grande Cravo instalado no Campo dos Mártires da Pátria. E nesta altura do ano, em que se comemora o 25 de Abril, a obra ganha um novo significado. Mais do que uma homenagem à Revolução, o cravo foi pensado como um símbolo de construção coletiva, afirma o artista: “A liberdade é mais do que uma data celebrada no calendário. É uma construção coletiva”. E acrescenta: “cada pessoa pode ser uma pétala e é nessa soma de gestos individuais que se continua a construir Abril”.

Noutras zonas da cidade, o mesmo pensamento assume outras formas. No Príncipe Real, uma escultura afirma uma ideia de inclusão que considera essencial no espaço comum. Em Benfica, no Campo Grande e noutros pontos de Lisboa, as suas obras continuam a sublinhar valores que considera inseparáveis da vida urbana: a dignidade, a igualdade e o respeito pelo outro.

“A diferença não nos deve afastar, deve ser aquilo que nos aproxima.”

Para Rui Pereira, a cidade tem também a responsabilidade de educar. Cada praça, cada jardim, cada rua pode ser um lugar de encontro entre as pessoas e aquilo que as faz pensar. É por isso que vê a arte pública como “uma forma de participação cívica, não como um gesto decorativo, mas como uma presença capaz de criar ligação entre quem vive a cidade”.

Ao longo de mais de três décadas ao serviço de Lisboa, foi acompanhando a transformação da cidade e deixando nela uma marca própria. Uma marca silenciosa, mas visível, construída entre a criação artística e o serviço público. “Lisboa é um lugar vivo, feito de pessoas e de memória”, diz. E é precisamente essa visão que atravessa o seu percurso: a de que uma cidade se “constrói com ruas e edifícios, mas também com aquilo que escolhe deixar visível sobre si própria”.