Dos Bastidores à Avenida
Marcha da Bela Flor Campolide
Segredos calcetados na Ribeira relembrados
Figurinista: Ana Marques
Na Marcha da Bela Flor Campolide, os figurinos transformam os ofícios, as paisagens e as memórias, que durante gerações fizeram parte da vida lisboeta, em espetáculo. Inspirada nas margens onde outrora se lavava a roupa e na arte da calçada portuguesa, a figurinista Ana Marques, em estreita colaboração com o coreógrafo Gucca Coutinho, procura contar uma história de tradição e identidade.
O ponto de partida foi uma breve visita pelo bairro, relembra o coreógrafo, onde procurou descobrir os detalhes que mais tarde deram forma aos fatos.
“Desde a vegetação ao pé do rio onde se lava a roupa até aos recortes das pedras da calçada”, afirma.
O universo das lavadeiras surge representado através de alguidares, tábuas de lavar, trouxas de roupa e bolhas de sabão que se multiplicam nas saias das marchantes. Já os calceteiros fazem-se notar nos martelos e maços transportados pelos homens, elementos que reforçam a homenagem a um ofício profundamente ligado à história de Lisboa e de Campolide.
A ligação ao bairro estende-se também aos acabamentos das peças. Os galões aplicados nos trajes evocam, segundo Gucca Coutinho, tanto as linhas do Aqueduto das Águas Livres como o movimento das correntes do rio, reforçando a coerência visual de um projeto onde figurino, cenografia, música e coreografia são pensados em conjunto.
A paleta cromática acompanha a narrativa. Os azuis e os cinzentos remetem para a água e para a pedra, enquanto os apontamentos de lilás, fúcsia, prata, dourado e branco acrescentam luminosidade ao conjunto.
A mesma atenção ao detalhe encontra-se nos arcos, concebidos para estabelecer uma ligação direta ao Bairro e à sua história.
“As pedras estão reproduzidas ao pormenor. Têm o relevo certo e permitem identificar imediatamente a calçada portuguesa.”, refere o coreógrafo.
Ao mesmo tempo, a estrutura remete para o Aqueduto das Águas Livres, um dos marcos mais emblemáticos de Campolide, e tem a forma de um coração, que representa “o amor ao bairro”.
Para Gucca Coutinho, figurino, cenografia e coreografia são partes inseparáveis da mesma narrativa. Por isso, acrescenta, os fatos são pensados desde o início para integrarem o movimento e a construção coreográfica. “A roupa vai ao encontro daquilo que eu vou fazer na coreografia”.
Resultado da união das antigas marchas da Bela Flor e de Campolide, a coletividade regressa, em 2026, à Avenida para revisitar as histórias das lavadeiras e dos calceteiros, figuras que ajudaram a moldar a identidade lisboeta.
Organização: Academia de Artes Internas






