Dos Bastidores à Avenida
Marcha do Alto do Pina
Os tritões e as varinas – o orgulho e a resiliência de um bairro
Figurino: Nuno Garcez
Num “cantinho mágico” onde tudo ganha forma, nasce o universo visual da Marcha do Alto do Pina. É neste espaço de criação, entre tecidos, lantejoulas, moldes e pequenos adereços, que o figurinista Nuno Garcez, transforma ideias em peças concretas que dão vida ao desfile.
Aqui, cada detalhe conta: cintos, brincos, pulseiras, aplicações que são cuidadosamente integradas nos figurinos, e que, em conjunto, criam uma identidade visual.
O figurinista conta com as costureiras orientadas por Júlia Santos, que há 34 anos se dedica à confeção dos fatos para as marchas.
“É muito bom trabalhar com o Nuno. Ele consegue transmitir as ideias e aquilo que está no papel ganha forma e chega até nós, permitindo-nos construir o figurino”, diz com orgulho.
Atualmente, Júlia lidera uma equipa de 13 pessoas, entre as quais a filha, Kátia Matos, que já segue os seus passos. Cresceu a ver a mãe a trabalhar nas marchas, já foi marchante e atualmente integra o processo, participando no risco, no corte das calças dos músicos e dos aguadeiros da Marcha do Alto do Pina.
O tema mergulha nas histórias e tradições do bairro, e num dos seus marcos emblemáticos: a Fonte Luminosa.
“Vamos desenvolver a mitologia da Fonte Luminosa com a tradição das Varinas, que não é só dos bairros, mas é uma tradição de Lisboa inteira”, diz o figurinista.
O figurino propõe, assim, um encontro entre o imaginário mitológico e a realidade popular, num equilíbrio delicado entre fantasia e tradição. O azul, em múltiplos matizes, assume protagonismo, remetendo diretamente para o mar, enquanto o dourado surge como contraponto luminoso: um verdadeiro “ouro sobre azul” que reforça a riqueza visual do conjunto.
Os materiais privilegiam o brilho e a textura: lantejoulas, transparências e superfícies iridescentes que criam a sensação de movimento e leveza, como se os figurinos respirassem a atmosfera da beira-mar.
Os adereços aprofundam esta narrativa. Conchas, búzios, corais e elementos translúcidos integram-se nos figurinos, criando jogos de luz. Aplicados nas saias e cinturões, estes detalhes ganham vida com o movimento das marchantes, desenhando ondulações subtis que evocam as ondas do mar.
A presença do Tritão, figura central desta inspiração, cria um imaginário reconhecível por todos, sem comprometer a linguagem estética própria das Marchas Populares.
Mais do que um exercício criativo, este figurino responde também a uma dimensão emocional. Nuno Garcez sublinha a importância de fazer com que cada marchante se sinta confiante, elegante e orgulhoso. A vaidade, neste contexto, é entendida como motor de performance:
“Quando o figurino valoriza quem o veste, ele transforma-se numa extensão do próprio corpo e da expressão em desfile”.
Com uma aposta forte no impacto cénico e na harmonia com a coreografia, o figurinista não tem dúvidas: “O Alto do Pina vai brilhar na Avenida”.
Organização: Ginásio do Alto do Pina






