Dos Bastidores à Avenida
Marcha da Bica
Ó Bica Salgadeira
Figurinista: Dino Alves
Há temas que se revelam nos adereços, outros nos materiais e outros nas histórias que inspiram a marcha. Na Bica, o tema deste ano revela-se, antes de mais, na cor, tal como salienta o figurinista Dino Alves: “Quando perceberem a escolha da cor, percebem também logo qual é o tema”. O branco reflete-se no figurino das salgadeiras e na importância histórica do sal, um produto tão valioso que chegou a ser conhecido como “o ouro branco”.
É dessa matéria-prima essencial que nasce o universo visual da marcha. As marchantes surgem como figuras simbólicas, explica Dino Alves, “são vistas quase como umas rainhas do sal, umas deusas do sal, no sentido da preservação da história e da memória”.
O resultado é um dos figurinos mais ousados dos últimos anos da Marcha da Bica. Num universo onde a cor costuma assumir um papel central, Dino Alves optou por uma abordagem dominada pelo branco e pelos reflexos metálicos. “É um figurino arriscado, no sentido em que não tem muita cor”. Ainda assim, o criador não hesitou: “A ideia é sempre inovar”. Essa procura constante por novas linguagens tem marcado o trabalho do estilista desde que assumiu os figurinos da Bica.
Nos figurinos femininos, essa visão concretiza-se através de um material pouco habitual nas Marchas Populares.
“Decidi usar este material, que é um não tecido, que parece papel, mas na verdade tem uma resistência enorme”. A escolha não foi apenas estética: “Também pela cor e por este efeito meio origami que dá, e por ser um tecido um bocadinho tecnológico”, esclarece Dino Alves.
Por sua vez, os figurinos masculinos exploram um complexo trabalho de estampagem localizada. Um processo demorado, mas que permite um rigoroso resultado final. Apresentam-se com tocados metalizados e referências discretas ao universo marítimo.







Os adereços reforçam o carácter simbólico da proposta. Nas cabeças das marchantes surgem estruturas que podem fazer lembrar um cesto, uma coroa, um coral ou até um fóssil.
“Gosto que as pessoas olhem e pensem: isto faz-me lembrar alguma coisa, mas não sei bem o quê”, revela o criador.
Apesar da forte componente criativa, Dino Alves faz questão de sublinhar que as marchas continuam a ser uma expressão de cultura popular. “Apesar de o figurino poder ter um lado mais moda, mais sofisticado, tem que ter sempre uma base de folclore”.
É precisamente neste equilíbrio entre tradição e inovação que assenta a proposta da Bica para este ano.
Organização: Marítimo Lisboa Clube