Dos Bastidores à Avenida
Marcha de Benfica
Fábrica Simões
Figurinista: Carla Pereira
A marchar desde 1934, os figurinos de Benfica este ano prestam homenagem à Fábrica Simões e ao legado de Luís Simões. Entre agulhas, tesouras, alfinetes e fitas métricas, os figurinos assumem-se como uma viagem ao universo da costura e da tecelagem.
A Fábrica Simões, recorda a figurinista Carla Pereira, ficou conhecida não apenas pela inovação que introduziu no setor têxtil, mas também pela forma como o seu fundador olhava para quem ali trabalhava. É essa dimensão humana que serve de ponto de partida para o tema da marcha, que conta uma história de amor entre uma costureira e um alfaiate, cujo encontro acontece no baile, depois de um dia de trabalho.
Para construir a identidade visual da marcha, a figurinista recuperou um padrão intrinsecamente ligado à história dos tecidos.
“O pied de poule foi criado no século XIX. Mais tarde, no século XX, ganhou popularidade e foi adotado por marcas de alta-costura, que o transformaram num estampado de luxo”, explica Carla.
A criação dos fatos parte desse motivo clássico, reinterpretado através das cores da marcha. “Ao preto e branco do pied de poule, juntámos a cor do clube que organiza a marcha, o vermelho”. O amarelo surge ainda como apontamento complementar, inspirado num objeto familiar a qualquer costureira: a fita métrica.
Para além de recorrer ao tecido e à cor para contar esta história, Carla Pereira decidiu transformar ferramentas de trabalho em elementos decorativos. “Tesouras, fitas métricas, a nossa almofada de alfinetes”, descreve. Nos figurinos femininos surgem ainda os escantilhões de curvas, utilizados na modelagem. Já nos masculinos, o destaque vai para as navetas, peças essenciais no funcionamento dos teares. “São peças que passam o fio no tear artesanalmente”, esclarece a figurinista.
A homenagem estende-se também às técnicas da própria tecelagem. Entre fios cruzados e diferentes relevos, os figurinos procuram reproduzir visualmente as texturas produzidas num tear. “Passei fios entre o tecido, tal e qual como fazemos num tear”, revela a criadora dos fatos.
Por detrás de cada fato está um trabalho que começa muito antes dos ensaios. A criação começa no final do ano anterior, com o desenvolvimento dos primeiros protótipos, e a produção intensifica-se a partir do mês de fevereiro, numa construção feita peça a peça, que exige horas de modelagem, corte, costura e acabamentos.
Com três vitórias no historial das Marchas Populares de Lisboa, a última conquistada em 1989, Benfica regressa mais um ano à Avenida e leva consigo uma homenagem à memória industrial do bairro.
Organização: Clube Futebol Benfica



