Dos Bastidores à Avenida
Marcha dos Olivais
O beijinho português
Figurinista: Hugo Barros
Os fatos da Marcha dos Olivais são concebidos ponto a ponto no ateliê de Margarida Freitas, numa combinação de técnica e emoção.
Tudo começa com uma imagem, com um desenho do figurinista Hugo Barros. “Nós temos uma imagem e, a partir daí, vamos desenvolvendo”, diz. Não há guião fechado, mas há interpretação, experiência e sensibilidade.
Este ano, o tema dos Olivais é “O beijinho português”. E é esse gesto simples, quase simbólico, que atravessa todo o figurino.
Hugo Barros criou o figurino a partir de um imaginário ligado ao universo marítimo relacionado a marinheiros e fuzileiros, num diálogo direto com o tema A Europa em Lisboa e com a chegada de pessoas de outros países à cidade, tal como os marinheiros que aportam ao cais lisboeta e aí descobrem não só a figura icónica da varina, mas também o amor. “Não têm como não se apaixonar pelas mulheres portuguesas”.
“Podes até gostar do beijinho alemão, do inglês, do francês… podes correr o mundo, mas não há melhor que o beijo português", diz a letra da marcha. Visualmente, a marcha reforça esta ideia com a simbologia das cores nacionais: a mulher de vermelho e o homem de verde, enquanto os padrinhos, em dourado, completam a bandeira portuguesa.
No figurino feminino, a saia, uma das peças mais marcantes, esconde uma construção complexa: armação, saiote, veludo, gomos, rendas e fitas, tudo sobreposto com precisão. “Montar as saias é um grande desafio”, diz Margarida sem hesitar: “As saias têm muitas camadas de tecido, é muito difícil de trabalhar.” “Cada saia leva 12 peças, é tudo feito uma a uma”, explica Margarida.
Há momentos de tensão, de linhas que se soltam e recomeçam, de ajustes constantes. “Estamos sempre a puxar e a acertar, o que for preciso”, conta.
O modelo masculino é composto por um casaco de inspiração militar, de cor verde que, nas palavras de Margarida, representa “o militar a dar um beijinho à menina”. “Optámos por não encher muito de beijinhos, fica só como um pormenor, mais subtil”, explica.
Além da estética, há uma preocupação prática que orienta a escolha dos tecidos: o conforto dos marchantes e a utilização de materiais reciclados. Uma decisão que mostra como o figurino não é apenas para ver mas também é para ser vivido, dançado, suportado ao longo de toda a atuação.
No ateliê, o trabalho divide-se por três mulheres: Margarida, Luísa e Amélia. “Somos três a fazer a marcha toda”, afirma. A cada peça, repetem-se gestos minuciosos: fitas aplicadas uma a uma, corações cheios manualmente, rendas integradas com cuidado. “É tudo feito um por um”, reforça Margarida.
No ateliê da Guida, o “Beijinho Português” não é apenas um tema: é costurado em cada tecido, em cada camada, em cada gesto, até sair para a rua e ganhar vida.
Organização: Grupo de Pesca e Desporto Santa Maria dos Olivais




