Dos Bastidores à Avenida
Marcha da Mouraria
A Mouraria, um Fado de todas as cores
Figurinista: Vasco Catarino
A Mouraria veste um novo fado que ganha forma no figurino criado por Vasco Catarino. O ponto de partida conceptual rompe com a imagem tradicional do fado, frequentemente associado ao negro, às franjas e a uma estética mais pesada.
“A ideia foi criar um fado diferente, mais alegre, mais colorido”, explica o figurinista. Um fado que, sem perder as raízes, se abre ao presente e dialoga com a diversidade cultural que hoje define a Mouraria.
O tema acompanha também a linha geral das Marchas Populares deste ano, cruzando Lisboa com a Europa.
O figurino da marchante feminina parte de uma base negra, alinhado com o fado tradicional, mas abraça motivos de cor e brilho. As tonalidades utilizadas remetem para as bandeiras europeias e simbolizam essa diversidade, criando um contraste visual: do passado para o presente, do monocromático para o vibrante.
Os materiais reforçam essa dualidade. À renda, tradicional e delicada, junta-se o brilho das lantejoulas e das pedras, criando uma composição onde convivem referências clássicas e contemporâneas.
Cada elemento do figurino carrega um significado. As rosas vermelhas, presentes na cabeça das marchantes, evocam a figura de Maria Severa, símbolo maior do fado e da Mouraria. Já os brincos em forma de coração e os acessórios dourados remetem para a paixão pelo bairro, pela música e pela tradição. As mangas volumosas, feitas com folhos e tule, são pensadas para o movimento: abrem-se com os gestos dos braços, revelando cor, leveza e sensualidade, e transformam o figurino num elemento ativo da coreografia.
O figurino masculino segue a mesma lógica de contraste, também aqui o negro serve de base, sendo depois pontuado por explosões de cor nas mangas. Entre os detalhes mais inesperados surgem os óculos de sol espelhados, numa abordagem mais irreverente.
“É o bairro hoje, descontraído, diverso, em constante transformação”, resume Vasco Catarino.
Apesar da aposta na modernidade, o figurino mantém as referências ao universo tradicional das marchas. O coração em filigrana continua presente como símbolo da portugalidade, da paixão e da identidade popular.
O processo de produção foi, também ele, um desafio. Cerca de 70 figurinos foram concebidos e executados por uma equipa reduzida de quatro pessoas, ao longo de pouco mais de um mês.
“É um trabalho intenso, mas muito gratificante”, admite o figurinista.
O figurino da Marcha da Mouraria pretende ser um reflexo do bairro que representa: histórico, multicultural, popular e em constante reinvenção.
Ao propor um “fado das mil cores”, Vasco Catarino não abandona a tradição, mas acrescenta novas camadas, novas referências e novas formas de expressão.
Na Avenida, o resultado será mais do que um desfile. Será uma narrativa visual onde o passado e o presente se encontram, mostrando que o fado, tal como a Mouraria, continua vivo, em transformação e cheio de cor.
Organização: Grupo Desportivo da Mouraria






